Breve Resumo da História da Especialidade de Medicina de Emergência no Brasil

A especialidade de Medicina de Emergência abrange o diagnóstico e o tratamento de qualquer paciente que necessite cuidados diante de uma situação imprevista de uma doença aguda ou lesão que requeira atendimento imediato. A responsabilidade estratégica do atendimento às Emergências dentro dos sistemas de saúde modernos levou a criação de programas de especialização em Medicina de Emergência em todo o mundo, iniciando na década de 70 e em crescimento constante até hoje.

No Brasil a história da especialidade é recente. Na década de 90, diferentes iniciativas buscavam organizar e qualificar o atendimento às emergências, como Jornadas, Simpósios e Cursos que se dedicavam a ensinar Emergência mas não possuíam necessariamente uma orientação ou perspectiva de futuro para a área.

Em 1992, a disciplina de Emergências Clínicas na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo foi criada, buscando introduzir já na graduação, os conceitos da especialidade. Nessa mesma época, em Campinas, Ribeirão Preto e Porto Alegre, os primeiros sistemas de atendimento pré-hospitalar do país eram montados, baseados no modelo do SAMU francês.

Em 1996 a primeira residência de Medicina de Emergência foi criada em Porto Alegre, nessa mesma época, por um grupo de médicos do Hospital de Pronto Socorro. Iniciou como subespecialidade clínica, mas rapidamente adotou o modelo mundial de área básica, com três anos de treinamento com entrada direta a partir da graduação. Os esforços para que a Medicina de Emergência se tornasse uma especialidade iniciaram, mas esbarravam na falta de identidade dos médicos que trabalhavam nas emergências brasileiras com a área, que a viam como complemento de renda e não especialidade fim, além da falta de estrutura e remuneração adequada.

Considerando a necessidade de organização em busca de melhores condições de trabalho, em 1998 a SOCEMU (Sociedade Cearense de Medicina de Urgência), é reestruturada pelos doutores Lindemberg Lima, Celio Vidal e Itamarcia Araújo, iniciando em Fortaleza um núcleo dedicado à especialidade. Em 2002 a SOBRAMEDE (Sociedade Brasileira de Medicina de Emergência) foi fundada em Brasília, tendo como seu primeiro Presidente o Dr. Luiz Henrique Hargreaves, hoje médico emergencista nos Estados Unidos.
Essa sociedade não conseguiu apoio institucional e governamental e acabou encerrando suas atividades alguns anos depois. Em 2003 fundou-se no Rio Grande Do Sul a Associação de Medicina de Emergência do RS – AMERS, formada por residentes e ex-residentes do Hospital de Pronto Socorro, bem como por seus preceptores e incentivadores, entre eles Dra Carmen Rasia e Dr. Luiz Alexandre Borges.
Essas instituições posteriormente viriam a ser a gema da Associação Brasileira de Medicina de Emergência (ABRAMEDE).

Durante esse período, o SAMU começa a ser implantado em todo o país, a partir da publicação da Portaria 2048 em 2002, que norteou o surgimento e a organização de novos serviços dedicados ao atendimento às emergências, estabelecendo as necessidades de área física, equipamentos e recursos humanos de acordo com a demanda de pacientes do lugar. A necessidade de uma organização do sistema de atendimento às Urgências e Emergências fica mais evidente.

Em 2007 o primeiro Congresso Brasileiro de Medicina de Emergência acontece em Gramado, organizado pelos egressos do Hospital de Pronto Socorro, tendo como presidente o Dr. Antônio Rogério Crespo, cirurgião do trauma e grande incentivador da especialidade no Rio Grande do Sul. Esse congresso se tornou um evento histórico, pois pela primeira vez os grupos que estavam desenvolvendo atividades referentes a Medicina de Emergência em todo o País se encontraram e traçaram metas comuns para desenvolver a especialidade no país. Como produto desse Congresso foi escrita a “Carta de Gramado”, documento que apontava os caminhos a serem seguidos de forma a mudar a história da Emergência brasileira, entre eles a necessidade de se refundar a Sociedade Brasileira de Medicina de Emergência. Novamente Porto Alegre é sede desta importante conquista, a fundação da ABRAMEDE (Associação Brasileira de Medicina de Emergência) ocorrida em 24 de abril de 2008, tendo como Presidente Dr. Luiz Alexandre Alegretti Borges – (RS) e como Vice-Presidente Dr. Frederico Arnaud – (CE).

Neste mesmo ano de 2008 a segunda Residência de Medicina de Emergência do Brasil é criada em Fortaleza – CE, no hospital Messejana, nos mesmos moldes da de Porto Alegre, com a participação do Dr. Frederico Arnaud. Já em 2009, Fortaleza sedia o 2º Congresso Brasileiro de Medicina de Emergência.

A partir de então, inicia-se uma jornada para o reconhecimento e valorização do emergencista, com a realização de encontros científicos (São Paulo em 2011 e Curitiba em 2013) e discussões em Câmaras Técnicas junto ao Conselho Federal de Medicina. As proposições dos diversos Fóruns foram compiladas em um único documento e apresentadas para parecer e votação na Sessão Plenária do CFM em abril de 2013. Por unanimidade o CFM aprovou o reconhecimento da Especialidade Medicina de Emergência. Durante esse período, diversas Resoluções sobre Medicina de Emergência foram editadas pelo CFM por conselhos regionais a partir de suas Câmaras Técnicas, relativas a funcionamento dos pronto-socorros hospitalares, SAMU, UPAs, classificação de risco e Vaga Zero.

Em setembro de 2015, o Conselho Científico de Especialidades da AMB aprova por unanimidade a criação da especialidade de Emergência e em 2016, a ABRAMEDE é escolhida como a representante da especialidade perante a AMB. O 5° Congresso Brasileiro ocorre em Porto Alegre, seguido pelo 6°, em Fortaleza, em 2018.
Hoje temos mais de 40 centros formadores de emergencistas distribuídos por todo o território brasileiro. Anualmente a ABRAMEDE aplica a prova de título de especialista em parceria com a AMB. Diversos cursos e material científico estão sendo produzidos e apoiados pela ABRAMEDE para garantir a educação continuada dos profissionais que já trabalham na emergência. E a especialidade só tende a crescer cada vez mais, na certeza de estar garantindo qualidade e foco no atendimento às emergências no Brasil.