Autor: Henrique Herpich
Post Peer Reviewed por: Ana Carolina Sampaio Freire

Há pouco dias completamos 11 anos da escrita da “Carta de Porto Alegre”, um documento histórico que pontuava a situação deplorável vivenciada nos departamentos de emergências e sugeria pontos de saída para essa crise. Ao lado da sugestão urgente de oficialização da Medicina de Emergência como especialidade médica e da criação por todo país de programas de residências, está também a necessidade de incentivo à criação da Disciplina de Medicina de Emergência em todos os cursos de graduação de medicina do país.

É verdade que avançamos muito desde então. Em 2016, a Medicina de Emergência finalmente virou especialidade médica e pulamos de apenas dois programas de residência para mais de quarenta programas na atualidade. Entretanto, a que ponto avançamos em nossas universidades?

A realidade é que a imensa maioria de nossas escolas médicas ainda é insuficiente, e muito, no ensino formal da medicina de emergência. Não abordando, em nossas universidades, o que a Medicina de Emergência é de fato, roubaremos de quantos estudantes o sonho de ser um emergencista?! Quantos “emergencistas” existem escondidos em outras especialidades, seja ela cardiologia, medicina intensiva, cirurgia geral, ou qualquer outra, porque não tiveram a oportunidade e o suporte para conhecer e acreditar na Medicina de Emergência?

Em contrapartida a toda essa triste realidade, as ligas de emergência se empenham em meios de suprir esse vazio, fornecendo maneiras de levar a emoção da sala vermelha para dentro do campus universitário. Muito mais do que discutir e aprender emergência, elas almejam a divulgação de uma realidade que infelizmente ainda é desconhecida por muitos acadêmicos: pode-se ser feliz na medicina de emergência e esse pode ser um dos lugares mais incríveis para se trabalhar.

Da mesma forma que grande parte das atividades no meio acadêmico, as ligas trabalham sustentadas por três grandes eixos de atuação: ensino, pesquisa e extensão.

No campo do ensino, são muitas as atividades que visam preencher as lacunas deixadas pelo currículo e aprofundar assuntos pertinentes no atendimento do paciente crítico. Seja por meio de simulações realísticas, explorando não apenas o conhecimento técnico, mas também o manejo emocional e a preparação psicológica necessária para a atuação em emergências, seja pela integração e imersão via simulação nos próprios departamentos de emergência, atuando lado a lado com emergencistas de profissão. Seja por meio treinamentos internos muitas vezes organizados por membros mais experientes e que abordam habilidades fundamentais para atuação na sala de emergência, seja explorando a riqueza e a diversidade das subespecialidades da Medicina de Emergência.

Além disso, no campo da pesquisa, as ligas representam um excelente meio de introdução e estímulo à medicina baseada em evidências, tão importante nos dias de hoje. O estímulo ao desenvolvimento e participação em trabalhos científicos desde cedo colabora tanto para o fortalecimento e o crescimento da pesquisa em medicina de emergência, ainda tímida em nosso país, quanto para descobertas que podem repercutir de forma significativa no cuidado do paciente grave.

Já no campo da extensão, é a hora de compartilhar com a sociedade o que esses aspirantes a emergencistas estão aprendendo dentro das universidades. São inúmeros os eventos sobre Primeiros Socorros e Reanimação Cardiopulmonar organizados por ligas de norte a sul do país e que juntas estão colaborando para a diminuição de mortes evitáveis e para a propagação de conhecimentos básicos de primeiros socorros para a população.

E não se enganem achando que pandemia de COVID-19 conseguiu frear o espírito emergencista desses jovens. A impossibilidade de eventos presenciais se tornou em uma grande oportunidade de expandir fronteiras no mundo online. Seja através de cursos que propiciaram uma verdadeira conexão entre os estudantes interessados por emergência, seja se mantendo perto da sociedade com cursos online de primeiros socorros.

Esses são apenas alguns dos projetos que vêm sendo desenvolvidos por diversas ligas em nosso país e vêm colocando em discussão a nossa mais nova especialidade médica.

Agora, se não existe uma liga de emergência em sua universidade, não se desespere. Essa é a melhor oportunidade que você poderia ter para começar uma. Sabendo da dificuldade de dar o primeiro passo, a Comissão Acadêmica da ABRAMEDE disponibiliza um passo a passo para a fundação de uma liga acadêmica, apresenta um estatuto modelo e se coloca à disposição para toda assessoria necessária nessa jornada. Click aqui para acessar a aba “Como fundar sua liga acadêmica”

Para as ligas de emergências já consolidas, a Comissão Acadêmica criou o Programa de Filiação de Ligas, possibilitando uma maior aproximação e auxílio da ABRAMEDE para com esses estudantes. Independente da sua trajetória, ao participar de uma liga de medicina de emergência, você deve tentar tirar o máximo dessa experiência. Separei para vocês algumas dicas para potencializar a atuação em ligas de emergência:

  • Estabeleça metas e seja organizado. A chave para todos os grupos de sucesso é ser organizado. Isso inclui a realização de reuniões regulares e a escolha das metas e objetivos para o ano letivo. Esse planejamento ajudará a prevenir conflitos, porque o ano letivo normalmente fica agitado e exigente ao longo das semanas.
  • Estimule treinamentos e workshops. Não há nada melhor e nem forma mais eficiente de aprender do que pondo a mão na massa. Treinamentos de procedimentos, ECG, US Point of Care, simulações, além de contribuírem para o conhecimento dos membros, tendem a aumentar a integração e comprometimento do grupo.
  • Explore a Medicina de Emergência e suas subespecialidades. Conheça a fundo o mindset do médico emergencista e como as coisas funcionam em um departamento de emergência. Aproveite para estimular o pensamento fora da caixa com subespecialidades como medicina de áreas remotas, ultrassonografia, medicina de desastres, toxicologia, entre outras.
  • Invista no networking local. Não há nada mais vantajoso do que se aproximar de quem também gosta do mesmo assunto. Procure os programas de residências em Medicina de Emergência próximos a sua universidade, conheça os residentes e os preceptores. Eles serão grandes parceiros para eventos e inclusive projetos de pesquisa.
  • Assuma posições de lideranças. Há quem diga, inclusive, que o emergencista é líder por natureza. Verdade ou não, assumir posições de lideranças irá contribuir de forma avassaladora em sua formação acadêmica e irá possibilitar uma infinidade de oportunidades para crescimento pessoal e profissional.

De norte a sul do país, já são mais de 100 ligas de emergência lutando, junto com a Comissão Acadêmica e a ABRAMEDE, pela divulgação e fortalecimento da Medicina de Emergência dentro do meio acadêmico. Tendo isso em mente, criamos o Projeto Ligas em Foco, um espaço das ligas e para as ligas. Nosso objeto é dar aos estudantes a oportunidade de compartilhar seus sucessos e experiências e desenvolver um portal de acesso aberto com recursos relacionados ao desenvolvimento das Ligas de Emergência. Acesse aqui para conhecer os posts mais recentes de ligas colaboradoras e para saber como você também pode contribuir.

A trajetória é longa e temos muito desafios pela frente. Mas não estamos sozinhos, em cada universidade, em cada turma, sempre tem um futuro emergencista só esperando encontrar o seu caminho.

Cite esse post como: HERPICH, H. Ligas de Emergência: socorrendo a graduação. Ligas em Foco, Comissão Acadêmica da ABRAMEDE, jun/2021. Disponível em: https://abramede.com.br/ligas-de-emergencia-socorrendo-a-graduacao/